
O procedimento busca controlar a pressão ocular para estabilizar a doença e preservar a visão existente do paciente.
O diagnóstico de glaucoma chega e, com ele, um plano de tratamento que geralmente começa com colírios. Mas, para alguns pacientes, o oftalmologista pode mencionar a necessidade de um passo seguinte: a cirurgia.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o glaucoma é a segunda maior causa de cegueira no mundo, ficando atrás apenas da catarata. Essa condição causa aumento da pressão interna do olho e alteração irregular no fluxo de sangue dentro do órgão, o que pode afetar o campo visual e levar até a cegueira permanente.
A cirurgia é uma ferramenta segura e eficaz para proteger o nervo óptico e preservar a sua qualidade de visão. Compreender como o procedimento funciona é o primeiro passo para ter mais tranquilidade e confiança.
O que é e quando a cirurgia de glaucoma é indicada?
A cirurgia de glaucoma é um procedimento que visa reduzir a pressão dentro do olho (pressão intraocular). Essa pressão elevada é o principal fator de risco para danos no nervo óptico, que levam à perda progressiva e irreversível da visão, característica da doença.
Ela se torna uma opção quando os tratamentos clínicos, como o uso diário de colírios ou procedimentos a laser (trabeculoplastia), não são suficientes para manter a pressão ocular em um nível seguro. A decisão é sempre individualizada, levando em conta o tipo de glaucoma, o estágio da doença e a saúde geral do paciente.
O objetivo principal: controlar a pressão ocular
A maioria das técnicas cirúrgicas atua criando uma via alternativa para a drenagem do humor aquoso, o líquido que preenche a parte da frente do olho. Quando esse líquido não consegue escoar adequadamente pelo sistema de drenagem natural do olho (a malha trabecular), a pressão interna sobe.
Assim, a cirurgia cria uma espécie de "desvio" ou melhora a eficiência do canal existente, permitindo que o humor aquoso saia do olho de forma controlada, normalizando a pressão e protegendo as delicadas fibras do nervo óptico.
A cirurgia não recupera a visão perdida
O dano causado pelo glaucoma ao nervo óptico é permanente. O objetivo da cirurgia não é fazer o paciente "voltar a enxergar" o que já foi perdido. O foco é estabilizar a doença, freando ou interrompendo a perda de campo visual para preservar a visão que o paciente ainda possui.
Quais são os principais tipos de cirurgia de glaucoma?
A oftalmologia moderna oferece diferentes abordagens cirúrgicas. A escolha do método mais adequado depende da gravidade do glaucoma, de cirurgias prévias e da anatomia do olho do paciente. As técnicas mais comuns podem ser divididas em três grandes grupos.
A trabeculectomia (TREC) é considerada uma das técnicas cirúrgicas tradicionais para o tratamento do glaucoma. Nesse procedimento, o cirurgião cria uma pequena abertura na esclera, a parte branca do olho, formando uma espécie de bolsa por onde o humor aquoso pode ser drenado para baixo da conjuntiva. Essa técnica é indicada principalmente para pacientes com glaucoma de ângulo aberto em estágio moderado ou avançado, especialmente quando o controle da pressão intraocular não é alcançado com medicamentos ou outros tratamentos.
Outra alternativa são as Cirurgias de Glaucoma Minimamente Invasivas (MIGS), um conjunto de técnicas mais modernas que utilizam microincisões ou pequenos implantes, conhecidos como stents, para melhorar o escoamento natural do humor aquoso. Esses procedimentos costumam ser indicados para casos de glaucoma em estágio inicial ou moderado e, em muitas situações, podem ser realizados juntamente com a cirurgia de catarata.
Já os implantes de drenagem, também chamados de tubos de drenagem, consistem na colocação de um pequeno tubo de silicone dentro do olho, responsável por conduzir o líquido para uma placa implantada mais posteriormente, sob a pálpebra, permitindo o controle da pressão intraocular. Essa técnica costuma ser reservada para casos mais graves ou complexos, como glaucomas secundários ou situações em que a trabeculectomia não apresentou os resultados esperados.
Como o procedimento é realizado no dia?
Antes do dia da cirurgia, alguns exames de imagem, como a ressonância magnética, podem ser necessários para um diagnóstico preciso. Esses exames geralmente duram entre 15 e 45 minutos por área avaliada. É fundamental manter a imobilidade completa durante esse período para assegurar a clareza e a precisão das imagens, embora o uso de contraste ou a movimentação do paciente possa alterar essa duração.
Entender a jornada no centro cirúrgico ajuda a reduzir a ansiedade. A cirurgia de glaucoma é um procedimento bem estabelecido, realizado por um oftalmologista especialista, e geralmente ocorre em ambiente ambulatorial, sem necessidade de internação prolongada.
Anestesia e duração
Na maioria dos casos, a cirurgia é feita com anestesia local, aplicada através de colírios e, por vezes, uma pequena injeção ao redor do olho. Uma leve sedação pode ser administrada para que o paciente relaxe e não sinta dor ou desconforto durante o ato cirúrgico. A escolha do tipo de anestesia é personalizada, levando em consideração a ansiedade do paciente, o que é fundamental para garantir sua imobilidade e segurança ao longo de todo o procedimento.
A duração varia conforme a técnica. Procedimentos de MIGS podem ser rápidos, levando de 15 a 30 minutos. Já uma trabeculectomia ou um implante de tubo costumam durar entre 40 minutos e uma hora.
Quais são os riscos e como é a recuperação?
Como qualquer procedimento cirúrgico, a cirurgia de glaucoma apresenta riscos, embora as complicações graves sejam incomuns. O período pós-operatório é uma fase crucial para o sucesso do tratamento e exige disciplina do paciente.
Riscos e possíveis complicações
O oftalmologista discutirá todos os cenários possíveis antes do procedimento. Entre os riscos, que são gerenciáveis com acompanhamento médico, estão:
- infecção ou sangramento;
- pressão ocular muito baixa (hipotonia) ou muito alta;
- inflamação ocular prolongada;
- aceleração da formação de catarata;
- necessidade de uma nova cirurgia no futuro.
Cuidados essenciais no pós-operatório
A recuperação completa pode levar de quatro a seis semanas. Durante esse período, seguir as orientações médicas é fundamental. Os cuidados geralmente incluem:
-
Uso de colírios: será preciso aplicar colírios antibióticos e anti-inflamatórios rigorosamente, conforme prescrito, por cerca de 30 dias ou mais.
-
Repouso relativo: evitar esforços físicos intensos, como levantar peso, praticar esportes ou fazer movimentos bruscos com a cabeça nos primeiros dias.
-
Higiene e proteção: não coçar ou esfregar o olho operado. É comum o uso de um protetor ocular, especialmente para dormir, para evitar traumas acidentais.
-
Acompanhamento médico: as consultas de retorno são essenciais para que o médico avalie a cicatrização e o controle da pressão ocular.
O que esperar após o período de recuperação?
Após uma cirurgia bem-sucedida, muitos pacientes conseguem reduzir ou até eliminar a necessidade de colírios para glaucoma. No entanto, é importante lembrar que o glaucoma é uma doença crônica e sem cura. Mesmo com a pressão controlada cirurgicamente, o acompanhamento com o oftalmologista deve ser contínuo e permanente. As consultas regulares garantem que qualquer alteração seja detectada precocemente, assegurando a preservação da sua visão a longo prazo.
Caso a cirurgia envolva a colocação de implantes metálicos, é importante estar ciente de que futuros exames de ressonância magnética podem ser necessários.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.
Bibliografia
JACOBSON, A.; ROJAS, C.; BOHNSACK, B. L. Ologen augmentation of Ahmed glaucoma drainage devices in pediatric glaucomas. BMC Ophthalmology, [S. l.], p. 1-10, maio 2021. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s12886-021-01827-4. Acesso em: 09 jun. 2026.
JOSHI, P. et al. Glaucoma in adults-diagnosis, management, and prediagnosis to end-stage, categorizing glaucoma's stages: a review. Journal of Current Glaucoma Practice, [S. l.], p. 170–178, 2022. Disponível em: https://www.jocgp.com/doi/pdf/10.5005/jp-journals-10078-1388. Acesso em: 09 jun. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Glaucoma: diagnóstico precoce e tratamento evitam perda da visão. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2021/maio/glaucoma-diagnostico-precoce-e-tratamento-evitam-perda-da-visao. Acesso em: 09 jun. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Blindness and vision impairment. Geneva: World Health Organization, 2026. Disponível em: https://www.who.int/es/news-room/fact-sheets/detail/blindness-and-visual-impairment. Acesso em: 09 jun. 2026.
